segunda-feira

|||||||||||||||||||||||||mEu momento|||||

Há momentos em que ele se sente só. Desprotegido, busca um abraço, uma voz amiga ao telefone, um encontro, beijos na boca. Precisa de algum modo saber-se em companhia. Precisa, como um corpo que cai, de um outro que lhe sirva de anteparo. Momento perfeito para desencontros, brigas, entender mal. Momento de fazer besteira, perder o controle, desobedecer os astros, o horóscopo do jornal, o bom senso, as cartas do tarô. Há momentos em que nem mesmo ele sabe o porque de tão só. Talvez seja apenas a falta daquele com quem ele briga, desencontra-se, entende mal. Ou não tenha a ver com esse, e seja de um outro que ele precise, agora, desencontrar-se rapidamente antes que seja tarde demais. Pode ter sido apenas uma discussão ao telefone, ou uma vontade louca de usar o seu poder contra o outro. Pedir licença à generosidade, ao bom senso, ao amor, e ser apenas mais a brigar por um pedaço de carne no açougue em promoção. Mais um a querer arrancar para si, do coração do outro, um verso, uma rima, a razão para uma bela frase ou uma boa idéia. Momentos de querer agir com crueldade e vingar-se do outro que revela a sua fraqueza. Momentos de querer ser forte e não precisar de nenhum corpo que lhe sirva de anteparo. E então, nem se importaria com desencontros, brigas e tudo o resto. Nem mesmo com beijos na boca, com corpos que se encontram e se desencontram, sem nunca perder-se. Momentos de mal humor, ou de uma tristeza que o deixa mal humorado. Que valham esses momentos apenas o que deles se conta, se aprende, escapa, e vira texto, e vira idéia e página, e alguém lê. E assim, de palavra em palavra, mal humor vira alegria. E talvez um dia, lhe renda até uns beijos na boca.

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