PSICO-ANTROPOLOGIA FAKE
Por Caio Fernando Abreu.
Reza não muito antiga lenda que homossexuais masculinos de qualqueridade ou nação – além de bofe, bicha, tia ou denominação similar – dividem-se em quatro grupos distintos. Seriam na verdade, sempre segundo a lenda,quatro irmãos que atendem por nomes femininos. A saber, e essa ordemarbitrária não implica cronologia nem preferência: Jacira, Telma, Irma e Irene.Para começo de conversa, vamos à mais popular delas: a Jacira.Suficientemente conhecida, seja pelo personagem Jaci (que no romance OndeAndará Dulce Veiga?, de minha autoria, em dias de arco-íris recebe umaOxumaré de frente e transforma-se na devastadora Jacira) ou pelos louváveisesforços do jornalista Eduardo Logullo em divulgá-la através da coluna JoycePascowitch, na Folha de São Paulo.Das quatro irmãs, Jacira é aquela que todo mundo sabe que é homossexual, eela mesma – que refere-se a si própria, seja qual for seu nome, sempre nofeminino – acha ótimo ser. A Jacira usa roupas e cores chamativas, fala altoem público, geralmente anda em grupos de amigos também jaciras como ela,todas exercendo o velho hábito de “fechar”. Como diria Antônio Bivar, é umapintosa. Uma pintosa assumida, despudorada. Sempre foi bicha, adora serbicha e, maniqueísta como ela só, continua achando que a humanidadedivide-se entre bofes e bichas, categoria esta última na qual se inclui. Comorgulho. Superinformada, embora não leia muito (existem Jacirasnigrinhas,analfabetas), ela sempre sabe – de orelhada – tudo que está emcartaz na cidade. Fofocas que insinuam viperinas dubiedades sobre asexualidade alheia. Ao entrar em qualquer ambiente, uma Jacira sempre éimediatamente notada. O que satisfaz seu principal objetivo na vida:aparecer.
Bem menos luminosa e sem graça que a Jacira é: a Telma. Seu nomeprovavelmente originou-se daquela versão que Ney Matogrosso cantava:“Telma eu não sou gay/ o que falam de mim são maldades”, algo assim. Aocontrário da Jacira, a Telma é infelicíssima. Ela bebe. Bebe para esquecer quepoderia ser homossexual. O problema é que, exatamente quando bebe, maisexatamente ainda depois do terceiro ou quarto uísque, é que a Telmatransforma-se em homo. Embriagada, Telma ataca. E dramaticamente namanhã seguinte não lembra de nada. Aquela Jane Fonda de The MorningAfter perde. Embora a Telma fique muito erotizada em estado etílico, elasempre nega que é, e negará até a morte. A única solução para uma Telmaempedernida seria a psicanálise (que ela, a mais doente, acha que nãoprecisa) ou parar de beber. O que, por tabela, significaria também parar detrepar. Pobres Telmas – categoria da qual países como o Brasil (videacademias de ginástica, futebol, chopadas com o pessoal da repartição, etc.)está cheio.
Menos trágica, mas ainda mais complexa, é a terceira irmã: a Irma. As Irmasnão são exatamente infelizes – pelo menos, não tanto quanto as Telmas --,embora bem menos felizes que as Jaciras – que aparentam ser e realmentesão felicíssimas. Irma é aquela que todo mundo jura que é, incluindo a mãe, airmã e a esposa (Irmas casam muito) – mas ela mesma não sabe que é. Nãosabe ou finge que não. A Irma dá quase tanta pinta quanto a Jacira, adoratodo o folclore gay, de Carmen Miranda a show de travesti, passando porconcurso de miss, Mae West, leopardos, James Dean e Marilyn Monroe.Estranhamente não “faz”. Quando solteira ninguém de sexo algum poderáafirmar – muito menos provar – que já fez sexo com uma Irma. Ou se fez, nãoprestou muito, pois há quem diga que Irmas costumam ser mal-dotadas,impotentes, dessas assim. Pode ser. A verdade é, quando casadas, as esposasdas Irmas raramente apresentam um ar satisfeito. Sexualmente satisfeito.Irmas costumam ser afáveis – ao contrário das problemáticas Telmas,introvertidas e depressivas. Adoram Jaciras, apesar destas gostarem dechamá-las, sobretudo em público e aos gritos, de “queridaaaaaaaa”. É quetoda Jacira sabe – ou supõe – que no fundo toda Irma é tão Jacira quanto ela.Mas como as Telmas, Irmas fogem de definições. E ao contrário das Telmas,muito pecadoras, podem até morrer sem se atreverem a provar os prazeresdo – para citar uma Jacira clássica – amor que não ousa dizer seu próprio etc.Inicialmente limitada a essas três, a lenda recentemente incluiu a existênciade uma quarta irmã: a Irene.
Tão assumida quanto a Jacira, ao contráriodesta, a Irene não dá pinta. Ela é, sabe que é, mas não exibe nem constrange.Pode até usar brinquinho na orelha, dar alguma rabanada menos comedida,ou mesmo – de brincadeira – referir-se a si mesma ou uma amiga nofeminino. Mas a Irene é tranqüila. Geralmente analisada, culta. Bom nívelsocial, numa palavra – Irene parece serena em relação à própria sexualidade.Que é diversificada. Podem ter longos casos, morar junto, ou viverem certasidiossincrasias eróticas. Só gostarem de working class, por exemplo, ou deadolescentes, choferes de táxi ou estudantes de Física. Ou de Irenes comoelas: são as Irenes lésbicas, bastante comuns e conhecidas, literalmente,como gays. Telmas e Irmas escondem tudo da família, vizinhos e colegas,embora a Irma não tenha nada a esconder. Jaciras não escondem coisaalguma, explicitérrimas. Irenes deixam no ar: se alguém perceber, queperceba. Educação é básico para elas. Serenamente educadas, pois, às vezesaté casam. Com mulheres.Entre as quatro, desgraçadamente as relações são turbulentas. Jaciras, porexemplo, adoram seduzir Telmas. Estas (quando sóbrias, claro) têm medopânico de Jaciras. Irenes por sua vez, nutrem uma espécie de carinhoapiedado pelas desventuradas Telmas – e isso pode até resultar numaardente noite de paixão entre ambas. Da qual naturalmente a Telma jamaislembrará, embora tenha feito horrores. O grande risco que toda Irene corre éapaixonar-se por uma Telma: comerá o pão que o diabo amassou, até entrarnoutra. Com a Irma, de quem Irene também gosta, o risco não é tão grave:Irenes sabem que com Irmas não rola. E pode assim transformar tudo numaaparentemente saudável “amizade viril”: as duas fingindo, para usar aterminologia antiga, que são bofes.
Há quem creia. Jaciras não simpatizammuito com Irenes, acham-nas “metidas”. A recíproca também é verdadeira:Irenes acham Jaciras pintosas demais, apesar de divertidas, folclóricas. Einconvenientes. E com a imperdoável mania de roubar namorados alheios.Irenes adoram namorar, pegar na mão, ir ao cinema, comer pizza, fim desemana em Ilhabela, ver TV – tudo isso together. Já Telmas e Irenes, entre si,são hostis. Talvez uma tema o julgamento da outra, vai saber. Irmas, noentanto, podem ceder aos insistentes encantos das Jaciras. Existem mesmocertas Irmas que algumas Jaciras – para ódio das Irenes – juram já ter feito.Jaciras, por sua vez, não raramente invejam Irenes, que sempre aparentamcerta prosperidade (ao contrário das Telmas), com um cotêzinho decadente).Irenes mais neuróticas gostariam, de vez em quando, de serem confundidascom Irmas. E Telmas costumam sentir cegos, súbitos impulsos de desvendarsuas almas abissais para os ouvidos compreensivos e ombros amigos dasIrenes. Na verdade, Telmas, Irenes e Jaciras invejam um pouco aquelaimpressão (nem sempre verdadeira) de pureza que toda Irma passa. Assimcomo se estivesse por fora de qualquer grupo de risco.
A propósito, já que abordamos esse desagradável tema: embora aparentemser as mais perigosas, no que se refere a riscos, e apesar de promíscuas (apromiscuidade esta implícita na jacirice). Jaciras cuidam-se muito. Verdadeque com camisinhas nacionais, daquelas que arrebentam na hora H, naprimeira golfada.Irenes sempre carregam na frasqueira sortido estoque de poderosascamisinhas estrangeiras, compradas em suas viagens. Com a idade se tornamum tanto maníacas com higiene, meio obcecadas com safe sex. Certas Irenesnão fazem há anos, vivem em permanente estado de nervos.Já as Irmas como não fazem, ou quando fazem é tão escondido que ninguémsabe dizer como fazem, não se preocupam com isso.O problema, novamente, são as Telmas. Impulsivas e atormentadas, nuncaestão prevenidas. Jamais podem prever quando passarão do quarto uísque ouda décima quinta cerveja, e isso normalmente acontece em horas que asfarmácias estão fechadas. Telmas, portanto, não carregam camisinha. Sequeras têm no banheiro, tamanha a negação. Enlouquecidas na cama (uma Telmacom tesão vale por cem Jaciras), Telmas fazem coisas que Madonna (ídolo dasJaciras) duvidaria. Essa representa outra secreta tortura mental das Telmas:como às vezes realmente não lembram do que fizeram (por lapso etílico), têmsempre rabo preso e um medonho medo de serem positivas.Irmas sempre são negativas. Ou aparentam ser. Acontecem surpresas, poisser Irma não significa necessariamente ser casta. Irenes via de regra lidambem com um teste positivo: espiritualizam-se, viram vegetarianas, zen-budistas, fazem ioga, procuram o Santo Daime ou Thomas Green Morton.Lêem muito Louise Hay, e até se recusam a tomar AZT. Jaciras muitas vezesnegam-se decididamente a fazer O Teste: têm uma certeza irracional de quedaria positivo. O que nem sempre é verdade, visto que nada mais forte quesanto de Jacira.
Vírus e suas saias-justas sem nesga à parte, na verdade a AIDS não mudoumuito o comportamento das quatro. Elas são arquetípicas, atávicas, eternas.Freud, por exemplo, na opinião geral era irmésima. Já Platão parece ter sidouma boa Irene. Ninguém colocaria em dúvida a jacirice de Oscar Wilde.Rimbaud, por sua vez, dá a impressão de ter começado como Jacira (quandochegou a Paris) para transformar-se – o que é raro – em Telma ( na Abissínia).Já Verlaine, teria sido uma Irma que se ajacirou.Clássicas ou contemporâneas, nenhuma delas deve ser criticada por isso. Àsua maneira, cada uma busca apenas essa coisa – o Amor: a Ancestral SedeAntropológica. O que pode acontecer (vide Rimbaud e Verlaine) sãotransmutações: Irenes que se ajaciram; Irmas (com tendência etílica) queviram Telmas; Telmas que – bem comidas – se irenizam ou mesmo ajaciram eetc. As mutações são tantas quanto as do I Ching. Há quem diga que essasnovas têm até nome, como as Juremas (Jaciras que se tornam Irenes) ouJandiras (Jaciras exacerbadas tipo Clóvis Bornay). Pode ser. Mas segundonossos estudos, Jacira que é Jacira nasce Jacira, vive Jacira, morre Jacira. Nofundo, achando o tempo todo que Telmas, Irmas e Irenes não passam deJaciras tão loucas quanto elas. E talvez tenham razão.